De sítio de lazer a criatório de ponta

O criador paranaense Nelci Mainardes é um entusiasmado pela vaca Jersey, da qual, há quase 10 anos, nada sabia. Hoje, sua dedicação faz dele uma referência na genética da raça 

Edson Lemmos

Quando foi adquirido, em maio de 1994, o sítio de Nelci Mainardes, localizado no interior de São José dos Pinhais-PR, media apenas nove hectares, tinha uma vaca, duas bezerras, muito mato, nenhuma benfeitoria e um galpão que pouco podia ser aproveitado. Como o lugar era bonito, o dono entendeu que, com alguma melhoria, ele se prestava bem ao lazer e descanso da família. Acreditando na idéia, comprou dois cavalos e três novilhas pretas, prenhas, para satisfazer o gosto de ver mais animais na propriedade.

Alguns investimentos depois, quando os custos apertaram e veio a necessidade de equilibrar as despesas, o sítio de lazer começou a mudar de perfil. O sitiante passou a estudar alternativas para viabilizar o empreendimento, procurou orientação com os amigos e recebeu a sugestão de que se dedicasse à produção de leite, trabalhando com vacas Jersey, o animal mais indicado para aquelas terras muito dobradas. Foi o que fez. Até então, Mainardes nada conhecia de vaca de leite.
Mas apostou firme na atividade, começando por vender quase todo plantel que havia formado. Só restou uma vaca, todas as demais foram negociadas. Para reposição, chegaram na propriedade uma novilha e seis bezerras Jersey, adquiridas de José Delmiro Solak, de Castro-PR. No começo de 99, o criador já inseminava seus animais e havia montado uma sala de ordenha. O Rancho Mainardes, como passou a se chamar, definitivamente havia abandonado a pretensão de sítio de lazer para se transformar numa pequena propriedade leiteira sustentável.

Hoje, a área total chega a 25 ha, conta com 120 animais no rebanho, sendo 52 no leite; produz 500 t de silagem de milho por ano, cresce em média 15% ao ano e detém inúmeras premiações regionais e nacionais, entre as quais, o título de grande campeã da Expomilk 2006, graças à especialização de seu plantel. O antigo sítio de lazer agora produz 950 litros de leite por dia e seu proprietário, que apenas gostava de vacas, agora é um criador dedicado, estudioso, apaixonado pela raça a ponto de se dedicar com afinco na direção da Associação dos Criadores de Gado Jersey do Paraná.
O começo de sua história como produtor coincide com uma crise profunda do setor leiteiro. É dessa época a compra de algumas fêmeas do criador Eduardo  Thá; mais tarde, outros 18 animais de Nilo La Roche Ferreira, que estava parando e possuía um dos melhores plantéis do Paraná. Do criador Fausto Batista, adquiriu um fundo de plantel com muito boa genética. E ainda foi em busca de animais de ponta em outros estados. Atualmente, cerca de 70% do plantel é feito em casa, sendo que 30% dos animais são de primeira cria, com média de idade de 2,5 anos.

Cevada e silagem de milho na dieta - Do gado em lactação, a metade dos animais é de primeira e segunda cria, com cerca de 3,5 anos. Quatro funcionários fixos cuidam da ordenha, do manejo dos animais e da lavoura. A cada 15 dias, um veterinário faz uma vistoria geral do rebanho. O sistema de criação utilizado é o de semiconfinamento, dividindo-se entre o cocho e piquetes de pasto nativo para dormir. A dieta básica é a mesma para todos os animais: silagem de milho e cevada. A exceção fica por conta das vacas de exposição, que recebem uma alimentação diferenciada, com mais feno, pré-secado e farelo de soja, e menos ração, visando ganhar longevidade.
Quando existe o “verde”, ou seja, pasto   de aveia   ou azevém, para fornecer aos animais,  se reduz o percentual de silagem e cevada. O emprego desta na alimentação de bovinos, aliás, é uma característica da propriedade. A opção por seu uso, segundo Mainardes, se dá em função de que ela é um excelente suplemento alimentar e de que existe um fornecedor muito próximo, o que torna seu custo bastante acessível, na faixa de R$ 58 a tonelada.
O sítio vem consumindo cerca de 12 t/mês de cevada. Quando a cervejaria reduz a produção, o produtor parte para a silagem, já que armazena o subproduto para o período de inverno. No total, a propriedade estoca 500 t de silagem de milho, obtida do plantio de 55 ha em áreas próximas, arrendadas, que, somadas às mais de 150 a 180 t de cevada, formam um volume suficiente para durar até dezembro do ano seguinte.

Vacas de alta produção recebem a mesma alimentação dos outros animais do rebanho: silagem, cevada, calcário calcítico e sal mineral, todos os dias, porém com maior porcentagem de ração, na proporção de um quilo de ração para cada três litros de leite. Vacas de menor produção, além da dieta básica, recebem um quilo de ração para cada 4,5 litros de leite produzido. Vacas em final de lactação recebem apenas a dieta básica até 30/45 dias antes de secar. Mainardes segue à risca a filosofia de trabalho que ensina que a definição de uma boa novilha começa com a criação cuidadosa da bezerra. Na propriedade, após o nascimento, elas permanecem 120 dias em aleitamento, sendo que após o sétimo dia já começam a receber um pouco de ração. Entre 45 e 60 dias recebem feno, que não é fornecido no cocho, mas oferecido em comedouro comum. Quando faz calor, são soltas em até 15 dias de nascidas. Fazendo frio, chegam a permanecer presas por até 30/45 dias após o nascimento.

Entre dois meses e meio a três meses, as bezerras começam a dormir fora, já que, até então, estavam presas no bezerreiro. Recebem leite num baldinho, mais ração e feno à vontade. Aos oito meses, passam a ocupar piquetes, onde recebem silagem, pré-secado, feno, além da ração. Dois oito aos 16 meses, os animais se alimentam basicamente de ração, feno e pouca silagem. Dependendo do estado corporal, o animal ganha alguma complementação com milho moído, antes de entrar na inseminação, que acontece por volta dos 16 meses.

Uniformidade e maior longevidade - Atualmente, toda a reposição no rebanho está sendo feita com animais gerados dentro do próprio Rancho Mainardes. O criador vem trabalhando seu gado exclusivamente com genética canadense, buscando manter uniformidade, padrão e maior longevidade no rebanho. O produtor garante que não tem idéia de buscar animais de fora, a menos que resolvesse ampliar. E para ampliar, o que não é o caso, com a genética de que dispõe, pegaria seus próprios animais e faria coleta de embrião, dentro de um projeto mais ousado.

Aliás, ele trabalha com duas possibilidades principais, quando o assunto é reprodução. A primeira delas é fazer o aproveitamento do seu banco genético, uma vez que tem animais “que merecem e têm que ser coletados”. A segunda possibilidade é começar a comercializar  embriões desses animais.  Enquanto amadurece a idéia, ele comenta que, atualmente, nos Estados  Unidos,  no Canadá e na Inglaterra, 90% da reprodução em propriedades leiteiras está sendo feita por meio da transferência de embrião.

Segundo ele, numa propriedade canadense que visitou, considerada o melhor criatório Jersey do mundo e onde estão os 10 touros de centrais mais comercializados ao nível mundial, existem apenas 35 animais em ordenha (produzindo cerca de 700 litros de leite por dia) e 50 animais em coleta de embrião. Hoje, cerca de 12 bezerras de Mainardes são fruto de embrião sexado. Fez-se a coleta de 33 embriões de duas vacas, 16 fêmeas foram implantadas e 12 barrigas foram geradas, “num processo sexado altamente rentável”, avalia, revelando que pagou R$ 800 por fêmea confirmada. Seus índices de reprodução revelam números excepcionais: 95% de prenhez e, no caso de implante de embrião, até 72% de prenhez.
“Minha intenção é expandir, mas hoje estou limitado. Tenho 58 canzis, que estão todos ocupados”, informa Mainardes, que não leva em conta a possibilidade de elevar a produtividade. “Não quero plantel com média de 25 a 28 litros vaca/dia. Quero trabalhar com a média que venho mantendo: 19 a 20 litros vaca/dia. Mais do que isso exige muito do gado e não se tem longevidade”, justifica. Orgulhoso do trabalho que vem desenvolvendo, admite que tem uma média de animais muito boa.

“O que me enche os olhos aqui no sítio são os animais que estou fazendo. A qualidade do sistema mamário dos animais de primeira cria me deixa animado, porque é uma questão que leva três ou quatro gerações para corrigir”, argumenta. Nos últimos quatro anos, Mainardes foi indicado três vezes como melhor criador e expositor de gado Jersey do Paraná. Apreciador das pistas, ele considera que a exposição é um ponto de confraternização e lazer de criadores e amigos, e também um local ideal para avaliar e descobrir se o trabalho que é desenvolvido na propriedade está sendo feito de forma certa ou errada.

Por outro lado, o bom desempenho em torneios também vem ajudando a alavancar as vendas, que são parte integrante das atividades do Rancho Mainardes. Todo ano são negociados em média 20 animais, que representam cerca de 20% da receita da propriedade. Ele pratica a venda apenas de novilhas prenhas, e não de bezerras, para ter adicional de boa barriga, com boa genética. Para ele, todo criador deve produzir animais para venda, a fim de ‘fazer caixa’. O Jersey, segundo ele, tem uma procura diferenciada e escassez no mercado paulista, em que novilhas comuns têm sido vendidas na faixa de R$ 4,5 mil. Já no mercado paranaense, ele tem vendido animais na faixa de R$ 3,5 mil, o que considera um bom preço.

Fonte: Revista Balde Branco, março-07, pg.40/43.